No olho do furacão
Eu ali parada
Congelada
Esse é o nome da carta
O baralho falou
Uma abundância de amor eu sou
De dentro da prisão de ter nascido da cor errada
Acordar para essa realidade, que por anos ignorei, não vi, neguei.
Mulher preta, sua vida não tem valor, muito menos a sua dor, como queres falar de amor?
Essa verdade doeu como um tiro
Me jogou longe, cai para trás
Um barulho estrondoso
e ao mesmo tempo tão silencioso
Das cinzas renasci e aqui estou
Fazendo o que me traz paz
Isso sim, eu sempre terei, não hão de me tirar, prender, limitar, enquanto em mim houver,
um verso para recitar
Mulher negra e sua historia
Que não fica somente na memoria, aqui eu vim lhes contar
Um tiro desses não mata, ele desata, os nós da garganta, ele da forças , para essa fênix voar
Toda dor vai embora de dentro para fora, sozinha, não dividida, mas precisa ser reconhecida, acolhida, curada, antes de tudo, antes de mais nada
Essa preta
não permitiria , mesmo em sua alforria
outra alma acorrentar junto a minha
enquanto estou a sangrar
que venha toda infantaria
se forte estou, alegria, os tiros não vão derrubar
agora sim vem
estou pronta , linda como a madrugada estrelada
Toda dor vai embora, mas primeiro precisa ser curada, antes de tudo, antes de mais nada