A pele arrepiava toda vez que o ar cortante daquele fim de outono a tocava
Nas janelas e telas, água fria condensada, palavras com o dedo ela rabiscava
Observava que com o toque da pele quente no vidro frio
As palavras iam se dissolvendo como sonhos de infância ao se dar conta que a vida não se planejava
Agora vem o astro rei.
Tímido e ainda o mais poderoso, de fora para dentro transformava cada palavra rabiscada
em nada
Ela não se importava.
No dia seguinte
O frio de outono voltaria
E o calor de dentro ao sentir o frio lá fora, na janela choraria
Ela porém, rabiscava
Sabendo que logo cada palavra seria apagada
Era essa sua religião
Não morar nas palavras e sim coração e na pele que o vidro tocava
A lição que a estação depois do verão contava
Como as folhas que caem, tudo se transformava
Guarda a memória, o olhar, o toque que lhe consome
Tudo mais
como a água na janela
some
Tão bom ser da água, regida pela lua
Entender os ciclos e seu poder
Olhar para o mar e pertencer
Dos olhos sentimentos escorrer
E como água ela se esparramava em todo lugar que chegava
Não existia nada que naturalmente não tocava e para sempre, sem sombra de dúvidas, sem medo, livre, sua marca deixava
Um tsunami era o que a chamavam.
Avassaladora.
Que novamente aguardava o frio e o calor se encontrar para brincar de rabiscar
E cada vez que o vidro gelado, molhado é tocado por sua pele quente
Palavras derretem, mas não elas somente
Sempre como sempre entender e sorrir para aquilo que não se pode mostrar, só no silêncio sentir

de novo e de novo